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Pragmatismo, Realismo e Idealismo.

Uma das formas de se classificar a evolução do pensamento filosófico é dividi-lo entre um ramo “subjetivo”, idealista, e um ramo “racional”, realista. Já nos primórdios da filosofia, essa divisão podia ser identificada. No famoso painel “Escola de Atenas”, Rafael mostra uma importante divisão entre dois grandes pensadores gregos. Em um aparente debate, o pintor retrata Aristóteles, apontando para baixo, para o mundo real, conversando com Platão, que aponta para cima, para o mundo das ideias.

A Razão, ou logos, é considerada uma forma de os filósofos gregos substituírem a narrativa mitológica. Em Platão, a narrativa mitológica é substituída pelo mundo das ideias e por uma verdade absoluta e pura – que, segundo alguns críticos de Platão, não deixa de ser uma nova mitologia. Aristóteles mantém a universalidade da razão platônica mas, ao contrário de Platão, nega a existência de um ‘lugar das ideias’, enfatizando, dessa forma, o mundo real e prático. Essa diferença é nítida quando se analisa as obras dos autores gregos. Enquanto Platão se preocupa em discutir conceitos abstratos, como a verdade e a justiça (A República), Aristóteles enfatiza análises mais práticas, como análises sobre formas de governo (em A Política) ou sobre o impacto prático das virtudes (Ética a Nicômaco). Por exemplo, em “A República”, Platão de fato tenta criar uma ideia de cidade perfeita, mas essa empreitada era apenas um meio para um fim. Todo o debate inicia-se com a busca do conceito de justiça. A criação da cidade perfeita estaria subordinada à descoberta desse conceito abstrato. Já em “A Política”, aristóteles é mais prático, definindo as formas de organizações políticas existentes – monarquia, aristocracia e democracia – em suas formas virtuosas e viciosas, descrevendo como os vícios se formam em cada forma de governo. Aristóteles, portanto, é eminentemente prático.Trata-se de uma importante divisão não só de objetos de estudo mas também de metodologia e objetivos.

Essa divisão ocorreu ao longo de toda a história – os pensadores idealistas tendem a ser otimistas, às vezes religiosos, monistas e dogmáticos, guiados por princípios abstratos. Os pensadores realistas, por sua vez, tendem a se guiar pelo empirismo, enfatizando a experiência e os fatos. Não é uma divisão perfeita. Muitos pensadores se enquadram numa mistura das duas vertentes, como Kant.

Não se trata de uma divisão “política” entre esses pensadores. Diferentes vertentes da direita e da esquerda se enquadram nos dois tipos filosóficos. Enquanto a esquerda mais ligada ao Marxismo-Lenismo clássico, que enfatiza o aspecto econômico e o materialismo histórico, é claramente realista, cientificista e utilitária, a esquerda pós-moderna possui inúmeros aspectos do pensamento idealista – seria impensável a ideologia de gênero como pensada por Judith Butler na URSS. Já a direita conservadora tende a ser idealista. Mesmo dentro da mesma vertente política há formas diferentes de defendê-la. O liberalismo, por exemplo, pode assumir feições realistas, quando sua defesa se baseia mais em conceitos utilitários e em fatos concretos (como em John Stuart Mill, Friedman ou Hayek) ou idealistas, quando baseada no direito natural ou em princípios abstratos (como em Nozick, Locke e Mises).

Como explicado na série de artigos “Clássicos da Liberdade”, Hayek defende o liberalismo pelo fato dele ser, para o autor, o mecanismo mais eficiente de organização social já tentado pela humanidade. Ele não julga o capitalismo de mercado como uma verdade adquirida pelo inquérito de princípios de justiça e de direito natural(como Locke e Nozick), mas, sim, como tendo uma vantagem relativa às outras formas de organização social. Mises, ao contrário, com sua praxeologia, considera que existem verdades “a priori” nas leis de mercado e na ação humana. Elas provariam que o sistema capitalista é o melhor possível. Essas verdades a priori não poderiam, para Mises, ser contrariadas por fatos concretos e históricos. Enquanto para Hayek os fatos concretos são usados para definir as ideias, para Mises as ideias são quase independentes dos acontecimentos históricos. Mesmo com essa grande diferença de metodologia, os dois autores chegaram a conclusões similares e, inclusive, são considerados dois dos grandes expoentes da mesma escola econômica: a Escola Austríaca. Nesse sentido, não é possível, de maneira alguma, fazer uma divisão política das escolas filosóficas realistas e idealistas.

Esse embate, hoje em dia, passa a ser, cada vez mais, um debate entre os ditos “científicos”, de um lado, e os “não científicos”, de outro. Enquanto os “científicos” baseiam seus argumentos em estatísticas e num suposto processo racional-cartesiano, os não científicos muitas vezes baseiam seus argumentos na moral, nos costumes, na religião ou em abstrações filosóficas.

Talvez fora do eixo-religioso, Nietzsche seja o autor do campo “não científico” mais conhecido. Para ele, tanto a teoria das formas de Platão quanto o racionalismo de Descartes devem ser combatidos. Ao mesmo tempo em que Nietzsche critica a religião, também critica a razão, gerando uma espécie de “ausência de moral e de verdade”, que torna o exercício da razão inócuo.

Mesmo sendo um crítico de Platão, Nietzsche se enquadra no campo idealista pelo fato de que não baseia suas análises em fatos mas, sim, em princípios e abstrações filosóficas. Quando Nietzsche tenta criar uma moral para substituir a antiga moral cristã, nos livros Para Além do Bem e do Mal e no Genealogia da Moral, o filósofo não se utiliza da razão, fatos, ou de um cálculo utilitário, mas, sim, do conceito de “vontade de potência” e da criação de uma “moral do homem superior”. Essa é a principal característica dos pensadores idealistas: a extensa utilização de conceitos subjetivos e abstratos. Nietzsche parte suas análises muito mais de conceitos psicológicos e literários, dando pouca importância para a metodologia científica.

Da dicotomia e da dialética entre realismo e idealismo

Uma boa definição sobre esses dois tipos de metodologia/pensamento aparece no livro The Will to Believe e no “Pragmatismo”, ambos de William James. Ele afirma que há, na história filosófica, dois impulsos cognitivos: o desejo de obter a verdade (associada aos idealistas) e as precauções para evitar erros e falhas (associadas aos realistas). Ocorre que quanto mais precauções se toma para evitar erros, mais difícil é encontrar a “verdade”. Se aceitarmos que há um trade-off entre evitar erros (método realista) e encontrar uma “verdade” (método idealista), o método cartesiano (realista) não mais aparenta ser o único racional para todos os aspectos da vida.

A metodologia cartesiana/científica parece indispensável para áreas em que evitar erros é essencial, como a engenharia e as áreas ligadas à tecnologia. Entretanto, quando lidamos com outros aspectos da sociedade e de nossas vidas pessoais, nos quais o “erro” pode ser menos trágico que a ausência de uma “verdade”, esse método pode ser menos eficaz.

Há áreas do conhecimento em que o uso da metodologia idealista é impensável: na astronomia e na física, por exemplo. Em outras áreas de nossas vidas, entretanto, a metodologia realista não é necessariamente a mais perfeita – pela própria subjetividade de nossas escolhas. Como definir, por exemplo, como deve-se viver a própria vida? O uso do idealismo ou do realismo na ciência política, igualmente, parece não ser muito claro, uma vez que dependem da definição de qual o objetivo da sociedade.

Sobre esse conflito entre os métodos cientificos e os métodos mais subjetivos, James, então, propõe uma espécie de união dos métodos realista e idealista, cimentada pelo “pragmatismo”: o uso do critério realista ou subjetivo seria ditado pela sua utilidade.

Para ele, tanto o realismo quanto o idealismo devem ser reconhecidos apenas como instrumentos para um fim, não como fins em si mesmos. Devemos, segundo ele, identificar as consequências práticas de aceitarmos uma teoria, conceito ou hipótese para cada caso concreto. O pragmatismo pressupõe que nossas “verdades”, sejam elas vindas do método idealista ou do realista, devam ter consequências úteis – o conceito de utilidade aqui é extremamente abstrato e pessoal. Uma consequência importante disso é que, como a situação social muda constantemente, a utilidade dessas verdades também muda, o que torna inviável o conceito de “verdade absoluta”. A partir dessa tese, ele desenvolveu a epistemologia pragmática, que considera o significado das ideias e das crenças não de forma abstrata, mas, sim, em termos de diferenças práticas que a adoção ou não dessas verdades tem na vida das pessoas.

É possível afirmar que Kant também tentou criar uma filosofia unindo o método realista e o idealista. A metodologia de Kant, entretanto, diferentemente do pragmatismo, é universalista. Tomemos por exemplo a máxima do imperativo categórico: “Age como se a máxima da tua ação fosse para ser transformada, através da tua vontade, em uma lei universal da natureza.” Ou seja, para Kant, um comportamento é adequado se fosse desejável que TODOS o seguissem. Kant parte do pressuposto de que há uma verdade a priori e de que o mesmo comportamento teriam efeitos similares sobre diferentes pessoas. Já o pragmatismo diz ao indivíduo que ele deve analisar as consequências de suas escolhas, tomando em conta sua própria individualidade.

A aplicação do pragmatismo, portanto, acaba sendo algo muito pessoal. Ilustrando esse ponto, podemos nos referir às teorias religiosas. Quais seriam os impactos de aceitar ou recusar essas teses? Por um lado, aceitar uma religião pode nos prover com a confortável e otimista crença de que tudo, no final, ficará bem, de que há uma justiça sobrenatural e de que as injustiças desse mundo serão vingadas. Por outro lado, aceitar essas noções também enfraquece os conceitos de liberdade, individualidade e mesmo o de responsabilidade pessoal (em algumas crenças), uma vez que estariam submetidos a uma “verdade superior” e inquestionável.

Ocorre que cada pessoa pode dar pesos diferente para esses “benefícios” e “malefícios” e, portanto, seria justificável e racional, sob a perspectiva pragmática, tanto a crença em Deus como a sua descrença, desde que os benefícios sejam maiores para o indivíduo. O conceito de verdade, portanto, acaba sendo submetido ao conceito de utilidade pessoal e de felicidade. A questão principal não é definir se Deus existe ou não, se algo é verdade ou não, mas, sim, se a crença em Deus é útil para a felicidade e a satisfação do indivíduo.

A conclusão dos pragmáticos, portanto, é a de que podem ocorrer situações em que é racional (pragmático) não ser racional e em que é racional acreditar em algo que não se tenha certeza de que seja verdade – James chama isso do “direito de acreditar”. A essência do pragmatismo, portanto, é submeter a verdade à utilidade pessoal e à felicidade.

Esse conceito oriundo do pragmatismo – de que a busca pela verdade acima de tudo pode ser nociva e de que, em realidade, deve-se analisar os prós e contras em cada caso – é muito bem retratado na série Black Mirror, no episódio “The Entire History of You” (S01E03), em que a obsessiva busca pela verdade e, por fim, sua obtenção, acaba arruinando a vida de Liam Foxwell. No episódio, Liam começa buscando a verdade sobre se foi bem sucedido em uma entrevista de emprego, utilizando uma tecnologia que permite “rever” tudo que já presenciou. Revendo e analisando constantemente a situação, Liam talvez acabe por se aproximar mais da verdade, o que, entretanto, gera estresse e ansiedade. (Spoiler) Posteriormente, a busca pela verdade entra em seu relacionamento, arruinando a vida de Liam e de sua parceira.

Outro conceito que pode ser analisado à luz do pragmatismo é o de meritocracia. É evidente, por exemplo, que uma pessoa pobre e obrigada a trabalhar para auxiliar a família ao mesmo tempo em que estuda, terá menos chance de sucesso que alguém de família abastada, que possa se dedicar integralmente aos estudos e tenha acesso a cursos particulares e a material de qualidade. As consequências pessoais e individuais de se negar – ou de se aceitar – a meritocracia implicam, entretanto, que negar sua existência é nocivo para o indivíduo. Se esse estudante pobre e com dificuldades acreditar que se esforçando ele conseguirá melhorar sua qualidade de vida, suas chances de, de fato, melhorar de vida serão muito melhores que caso ele negue o conceito de meritocracia, acreditando ser impossível ou excessivamente difícil tentar. É pragmático, portanto, acreditar e defender a meritocracia, uma vez que melhora suas chances de sucesso, independentemente do fato de a meritocracia ser ou não um conceito verdadeiro. Isso não impede, entretanto, de entender que, quanto mais se iguale as condições de estudo das pessoas, mais eficaz e válida será a meritocracia.

O elemento mais interessante sobre o pragmatismo talvez seja sua compatibilidade com a pluralidade de ideias e com a liberdade individual. Tanto o pensamento realista como o idealista, ao darem mais valor à “conclusão” do que às consequências de adotar uma conclusão, são, em certo grau, proselitistas e prescritivistas, uma vez que, ao aceitar-se algo como verdade, pode-se pensar que os outros deveriam, também, obrigatoriamente, aceitar isso. Como o pragmatismo dá mais valor às consequências individuais dessas crenças, torna-se mais aceitável que cada pessoa mantenha suas próprias crenças e formas de viver, desde que não afetando negativamente a vida dos outros.

O pragmatismo tem suas falhas. Um crítico de James, o filósofo Bertrand Russell, afirma que o pragmatismo tornaria aceitável a crença no Papai Noel. Trata-se de uma crítica um pouco injusta, mas que tem um fundo de verdade. O pragmatismo, de fato, defende que, em algumas situações, crenças em coisas falsas seriam aceitáveis, desde que úteis. Isso implica que a crença no Papai Noel pode ser aceitável para uma criança. Os conflitos dessa crença com outras ideias, com o passar do tempo, entretanto, tornariam-na pouco benéfica quanto mais próxima da fase adulta essa criança chegar.

Outro problema, em minha opinião o mais grave, é o comportamento de manada. O pragmatismo pode, em alguns casos, incentivar a aceitação de crenças mais pelo fato de elas serem aceitas homogeneamente por seu grupo social do que por fazerem sentido. É difícil imaginar que Darwin ou Copernico achariam pragmático defenderem suas teorias contra uma forte oposição de seus contemporâneos. Um exemplo mais atual, em um ambiente universitário, com grande presença de certa ideologia política, por exemplo, pode ser pragmático adotá-la e, em sentido oposto, extremamente custoso (em termos de custos sociais) divergir desse pensamento dominante.

Em um exemplo mais drástico, tomemos, por exemplo, o mundo fictício criado por Orwell em 1984, em que um governo totalitário controla quase todos os aspectos da vida pessoal do indivíduo. O governo criava a verdade, de acordo com seus interesses e era esperado que os cidadãos acreditassem nela mesmo quando soubessem ser falsa – o chamado duplipensar. Segundo o pragmatismo, não há quase nenhuma situação em que uma rebelião contra esse governo, por mais autoritário que ele seja, fosse possível ou mesmo racional. Em situações extremas, portanto, o pragmatismo pode gerar situações complexas. Hannah Arendt parece concordar com o pragmatismo ao afirmar que não se deve culpar os alemães que, por medo, não lutaram contra o nazismo e que o único dever moral esperado deles era não cooperar ativamente com o regime de Hitler. Essas conclusões, entretanto, são complexas e passíveis de serem debatidas. Talvez mais do que prescrever uma forma como as pessoas deviam se comportar, o pragmatismo de James, em realidade, apenas descreve como quase todas as pessoas se comportam.

A verdade é que, ao invés de oferecer respostas definitivas, o estudo da filosofia traz mais questionamentos e mais perguntas. Nem o método puramente realista ou idealista, nem o pragmatismo ou o kantismo oferecem respostas definitivas para as grandes questões da vida.

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