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Economia, Estatísticas e Manipulação

Um dos maiores e mais acirrados debates em economia hoje é relacionado à desigualdade. Economistas como Joseph Stiglitz e Thomas Piketty escrevem livros defendendo a ideia de que não só a forma do atual capitalismo é injusta, mas que a desigualdade tem aumentado. Em “The Great Divide”, Joseph Stiglitz defende a ideia de que, desde as políticas “neoliberais” de Ronald Reagan – que diminuiu os impostos e cortou benefícios sociais, mesmo tendo aumentado os gastos militares em um contexto de guerra fria – a classe média norte americana não teve um aumento de renda – o que, de acordo com Stiglitz e autores similares, demonstraria como o sistema capitalista, da forma como ele é organizado atualmente, é inviável e só beneficia os ricos. A solução para isso seria mais intervenção do Estado (Stiglitz defende, por exemplo, a nacionalização de vários setores, como o setor financeiro). Essas 3 ideias – 1) estagnação da renda de todos os americanos não-ricos; 2) dificuldade de ascensão social e 3) concentração de renda, são a base da argumentação de muitos movimentos políticos nos EUA e no mundo, como o “Occupy Wall Street”, “We are the 99%” e muitos outros que questionam os méritos do sistema capitalista, propondo soluções, às vezes radicais, às vezes moderadas. Este artigo não busca analisar o mérito das políticas defendidas por esses economistas e movimentos, mas, sim, alguns números que eles utilizam para justificar suas propostas. Vamos analisar como esses economistas chegaram às suas conclusões e quais recursos estatísticos eles utilizaram.

1 – Exceto para os ricos, a renda dos americanos estagnou por muitos anos?

Para Stiglitz, de 1969 até 1996, a renda dos americanos “médios” cresceu apenas 6% e, de 1980 para 2004, ela chegou a diminuir para todos os americanos exceto para os ricos. Parecem dados surpreendentes, mas qual o critério utilizado? O problema é que Stiglitz e muitos outros economistas que defendem essas ideias utilizam o critério de renda familiar (household income) e, com a diminuição do número de pessoas em cada “núcleo” familiar, essa renda diminuiu, de fato. É fácil entender isso: comparar a renda familiar de uma casa com 6 pessoas com uma de uma pessoa gera falhas estatísticas graves. Nos EUA, é cada vez é mais comum núcleos familiares pequenos, mães e pais solteiros ou então pessoas que decidiram viver sozinhos e ter menos filhos. O resultado disso é que o número de pessoas que trabalham por núcleo familiar diminuiu, o que, evidentemente, diminui o potencial de renda desse núcleo familiar. Mas qual seria a forma mais adequada de analisar a evolução da renda? A renda por pessoa desses núcleos familiares. Nesse caso, estudos de Alan Reynolds demonstram que, mesmo que a renda familiar tenha até diminuído um pouco de 1980-2004, devido à diminuição do tamanho dos núcleos familiares, o consumo real (real consumption – que leva em consideração benefícios concedidos pelo governo além da renda pessoal e, também, desconta a inflação) por pessoa aumentou 74%! Cada pessoa, portanto, teve, em média, um aumento de consumo de produtos e serviços bem grande. Algo muito diferente do que dizer que a renda familiar estagnou. Mesmo que ambas as afirmações estejam certas de uma perspectiva matemática.

O uso de estatísticas para enganar e desinformar é muito comum. Em alguns casos é puro desconhecimento e erro, mas, em outros, são pessoas que, achando que sua ideia de proposta política é moralmente superior, têm o direito de deturpar estatísticas para defendê-las. Em alguns casos isso é gritante:

Tom Wicker, por exemplo, um democrata convicto, ao escrever seus artigos no New York Times, utiliza o critério de “renda familiar” para apontar o fracasso das políticas de Ronald Reagan e George W. Bush e, em um artigo diferente, utiliza o critério de renda per capita e consumo real para defender o sucesso do governo Lyndon Johson e Barack Obama. Não preciso dizer que, caso ele invertesse o uso das variáveis estatísticas, poderia defender o sucesso do governo Reagan e o fracasso do governo Obama e de Lyndon Johson.

Ao medir a evolução da renda por meio do critério de “renda familiar”, como muitos dos críticos do capitalismo fazem, surgem outras conclusões “equivocadas”. Um critério normal para avaliar a desigualdade de renda é dividir toda a população (ou núcleos familiares) em 5 quintis (20%) e, depois, comparar, por exemplo, os 20% mais pobres com os 20% mais ricos. O problema é que utilizar o sistema de quintis combinado com as estatísticas de “renda familiar” exagera muito a desigualdade. Por exemplo: nos EUA, o quintil inferior de núcleos familiares possui 39 milhões de pessoas, enquanto o quintil superior possui 64 milhões – mesmo que o número de “núcleos familiares” seja igual nesses quintis. Quando analisamos o número de pessoas que trabalham no quintil inferior, descobrimos que o quintil superior tem 4 vezes mais pessoas que trabalham que ele. O que implica algo óbvio: famílias maiores, com mais pessoas trabalhando, tem uma renda total maior que famílias menores, com menos pessoas trabalhando. Nesse sentido, é perfeitamente possível que uma pessoa que ganhe bem, mas que more sozinha, seja classificada num quintil mais baixo que uma pessoa que, mesmo ganhando pouco, more com sua família, mas que várias pessoas da família trabalham e contribuem para a renda familiar. O resultado é que a desigualdade apontada por esse critério é muito maior que a desigualdade real, por pessoa.

2 – Os ricos ficam cada vez mais ricos e há, cada vez mais, dificuldade de ascensão social?

Ao argumentar isso, muitos economistas comparam, por exemplo, o quintil superior de um ano com o quintil superior de outro ano, chegando à conclusão de que a renda total desse grupo aumentou ou diminuiu. Nesse caso, quase sempre, os ricos ficaram mais ricos! Mas espera aí, nem sempre são as mesmas pessoas que estão nesses quintis com o passar dos anos. Caso analisemos a renda dos quintis, avaliando a evolução da renda das pessoas que antes estavam em cada um desses quintis, temos resultados bem diferentes. Por exemplo: As pessoas que tinham mais de 25 anos em 1996 e pertenciam ao quintil inferior (os 20% mais pobres) tiveram um aumento de renda de, em média, 91% em 2005. Muitas dessas pessoas, portanto, subiram de quintil. Já se pegarmos os que estavam entre o 1% mais rico em 1996, essas pessoas tiveram uma DIMINUIÇÃO de renda de 26 % em 2005. Portanto, o mais correto é dizer que quem era rico em 1996 ficou, em média, mais pobre, e, quem era pobre em 1996, ficou mais rico! Entretanto, quando utilizamos o critério de comparar os ricos de 1996 com os ricos de 2005 (que são pessoas diferentes), ao invés de analisarmos como os ricos de 1996 ficaram em 2005, podemos chegar à conclusão de que os ricos ficaram mais ricos – algo estatisticamente certo, mas que, por não analisar pessoas reais mas sim um conceito abstrato de “rico”, passa uma impressão bem errada sobre a realidade americana. A realidade é que, apesar dessa entidade abstrata chamada de “ricos” ficar mais rica, as pessoas REAIS que eram ricas em 1996 tiveram uma diminuição de renda de mais de ¼ em menos de 10 anos (fonte no final do texto). Isso ocorre devido à alta mobilidade social na sociedade americana, tanto para cima como para baixo.

De fato, estatísticas do Departamento do Tesouro Norte Americano demonstram que há uma variação muito grande de pessoas nos quintis superiores. Das pessoas que se caracterizavam como 1% mais rico em 1996, mais da metade havia abaixado de posição em 2005. No caso dos 0,1% mais ricos, essa variação é ainda maior, 3/4 dos americanos que estavam nessa posição em 1996 não estavam mais em 2005. Há, portanto, uma ascensão social significativa, mesmo que ainda seja muito mais fácil ascender da classe média para a classe alta que da classe baixa para a classe alta.

Quando a revista Forbes listou os 400 americanos mais ricos em 1982, 21% eram ricos devido a algum tipo de herança. Já em 2006, esse número diminuiu para 2%. O que implica que a fortuna herdada tem tido um papel cada vez menor na sociedade americana. Ainda que seja óbvio que nascer em uma família rica e de classe média dá uma vantagem gritante para essas pessoas – uma vantagem que sempre existiu na história do mundo – essa vantagem tem, na verdade, diminuído com o passar dos anos, sendo cada vez mais comum casos de ascensão social.

3- Confundir renda com patrimônio no debate sobre a desigualdade

Já escrevi um texto sobre isso, mas como é uma das falácias e confusões mais comuns na economia, decidi copiar aqui um pequeno trecho:

Uma ONG chamada Oxfam, que é uma confederação de 17 organizações e mais de 3000 parceiros com o objetivo explícito de defender políticas de combate à desigualdade e aumentar a intervenção do governo na economia, chegou à seguinte conclusão em um estudo: “os oito homens mais ricos do mundo possuem tanta riqueza quanto as 3,6 bilhões de pessoas que compõem a metade mais pobre do planeta”.

As pessoas têm bastante dificuldade em diferenciar os conceitos econômicos de renda e de patrimônio.

Ocorre que a pesquisa da Oxfam utilizou o critério patrimônio, não renda.

Por exemplo, pelo critério do patrimônio, qualquer pessoa sem um bem em seu nome têm patrimônio zero. Caso um brasileiro tenha usado o FIES para estudar medicina, não tendo ainda pago esse empréstimo, provavelmente ele terá patrimônio negativo, mesmo com uma renda mensal altíssima. Nesse critério, um bebê que acabou de nascer no Congo seria “mais rico” que esse médico recém-formado, já que ele não teria nenhum patrimônio em seu nome mas, ao menos, não teria nenhuma dívida. Isso traz resultados importantes:

 

A população mundial é de 7 bilhões de pessoas, e cerca de 3 bilhões são jovens sem nenhum bem em seu nome.

A conclusão disso é que, caso você tenha um fusca em seu nome, terá um patrimônio maior que quase 3 bilhões de pessoas somadas.

Ocorre que a fortuna das 8 pessoas mais ricas do planeta representam aproximadamente 0,3% do patrimônio mundial. Falando assim, parece algo bem menor do que dizer que eles tem mais patrimônio que metade do planeta. Mas são informações igualmente certas, de um ponto de vista econômico, da mesma forma que seria certo dizer que caso você tenha um fusca terá mais patrimônio que mais que 40% do mundo somado. Normalmente essas pesquisas acabam sendo muito difundidas justamente porque utilizam termos econômicos complicados que, quando manipulados, acabam passando informações verdadeiras, mas com interpretações totalmente equivocadas. Independente das políticas de combate à desigualdade defendidas pela Oxfam serem corretas ou não, o fato é que houve manipulação estatística para mostrar uma realidade “alternativa”, que tornasse as políticas defendidas pela ONG mais atrativas e urgentes. Esse tipo de desonestidade intelectual, especialmente quando é muito difundido – como a pesquisa da Oxfam – dificulta em muito o debate racional sobre a política econômica.

Conclusão:

Economia é uma ciência complicada. A manipulação de números e estatísticas pode facilmente passar uma impressão errada da realidade para leigos e, em alguns casos, mesmo para pessoas bem informadas. Daí a importância de sempre ler artigos de jornais e páginas de vários espectros políticos. Ao ler o livro de Stiglitz e, ao mesmo tempo, o de Alan Reynolds – ou artigos com posições similares às dos dois autores – um leitor atento perceberia a falácia estatística de Stiglitz. Ao usar estratégias matemáticas escusas para defender algumas políticas, muitas vezes economistas acabam por desmoralizar essas próprias políticas que não necessariamente são ruins ou equivocadas por serem baseadas em números “manipulados”.

Sejamos céticos com qualquer afirmação surreal e que sirva claramente um interesse político. Sejamos céticos, especialmente, com as políticas cheias de boas intenções mas sem embasamento prático. Boas intenções não são justificativa para uma ciência que busca distribuir recursos escassos – defender mais recursos para uma área/parte da sociedade é, automaticamente, diminuir recursos para outra área/parte da sociedade. Procuremos sempre nos informar em meios de comunicação com opiniões diferentes das nossas, pois, assim, será mais fácil percebermos as falácias e manipulações que se encontram em ambos os lados. Amemos mais a verdade que nossas convicções e ideologias – até mesmo porque, se não mudamos de opinião sobre nada já faz algum tempo, é bem provável que tenha algo de errado com nosso senso crítico.

Finalizando, uma citação de Murray Rothbard, do livro “Egalitarianism as a Revolt Against Nature, and Other Essays”:

” Não é nenhum crime ser ignorante em economia, a qual, afinal, é uma disciplina específica e considerada pela maioria das pessoas uma “ciência lúgubre”. Porém, é algo totalmente irresponsável vociferar opiniões estridentes sobre assuntos econômicos quando se está nesse estado de ignorância.”

Antes de termos opiniões fortes e estridentes sobre a reforma da previdência, sobre a desigualdade no mundo ou sobre o déficit público, nada mais justo que dar uma pesquisada sobre esses assuntos, consultando fontes com opiniões diferentes sobre os mesmos.

Fontes:

Income Mobility in the U.S. from 1996 to 2005,” Report of the Department of the Treasury,13 de novembro, 2007

Tom Wicker, “LBJ’s Great Society,” New York Times, 77 de Maio de 1990; Tom Wicker, “Let ‘Em Eat Swiss Cheese,” New York Times, 2 de setembro de 1988.

U.S. Bureau of the Census, “Changes in Median Household Income: 1969 to 1996,” Current Population Reports

Louis Uchitelle, “Stagnant Pay: A Delayed Impact,” New York Times, June 18, 1991, p. D2.

Robert Rector e Rea S. Hederman, Income Inequality: How Census Data Misrepresent Income Distribution . Washington: The Heritage Foundation, 1999.

Alan Reynolds, “Income and Wealth”

Bibliografia para aprofundar:

Joseph Stiglitz., The Great Divide: Unequal Societies and What We Can Do About Them (2015)

Thomas Sowell. Economic Facts and Fallacies(2011)

Rafael Galera é diplomata brasileiro e idealizador do projeto Academia dos Cérebros. As opiniões expressas nesse texto e nessa página, entretanto, são exclusivamente pessoais, não representando as posições do Ministério das Relações Exteriores ou do Governo Brasileiro.

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