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Como a Índia e a China contribuíram para reduzir a pobreza mundial

Mesmo com todos os atuais problemas, o avanço da humanidade é nítido. Especialmente se analisarmos em termos de bem estar econômico. Em 1820, quando o sistema capitalista e a revolução industrial começavam a ganhar mais impulso fora da Inglaterra, apenas 6% dos habitantes do mundo não eram considerados na “extrema pobreza”, os outros 94% eram miseráveis. Uma pequena elite tinha acesso a bens de consumo. Com o avanço econômico e tecnológico, essa proporção praticamente se inverteu: hoje menos de 10% da população se encontra em níveis de pobreza extrema.

Desde então, a melhora da qualidade de vida foi crescente. De 1970 para cá, a redução da pobreza se acelerou. Isso se deve, especialmente, ao rápido crescimento econômico da Índia e da China. Por quase 40 anos, ao menos do final da segunda guerra até por volta de 1980, a esses países seguiram modelos econômicos pautados em um alto nível de interferência estatal. O resultado: a economia dos dois países ficou praticamente estagnada em termos de PIB per capita, com crescimento muito abaixo da média mundial. Na China, a política econômica do “Grande Salto Avante”, que implicou um planejamento central da agricultura e a quase extinção da agricultura familiar, levou à fome e à miséria de parte significativa da população e, segundo a algumas estimativas, a mais de 45 milhões de mortos (fonte 1). Na Índia, um nível menor de intervenção estatal não levou a tantas tragédias, mas a política de Nehru de criar monopólios estatais, nacionalizar companhias estrangeiras e implementar um plano de industrialização guiado pelo Estado deixou a economia indiana quase estagnada por praticamente 40 anos.

Esses países, que juntos possuem quase metade da população mundial, abandonaram, por volta de 1980, o sistema maoista(China) e o “socialismo” de Nehru(Índia) e passaram a adotar medidas pró-mercado. A China estabeleceu zonas econômicas especiais e passou a adotar medidas favoráveis ao investimento estrangeiro, enquanto a Índia liberalizou sua legislação, eliminando monopólios estatais, incentivando o investimento estrangeiro e melhorando o empreendedorismo.

O “choque de capitalismo”, mesmo que parcial(A China, por exemplo, continua com muitas empresas estatais[SOE’s], mas a essência das reformas foi a implementação de princípios capitalistas, como as ZEE, p ex), teve resultados significativos nesses dois países, gerando um crescimento econômico grandioso e retirando mais de 1 bilhão de pessoas da pobreza extrema. Estima-se que, somente na próxima década, mais de 500 milhões asiáticos entrarão para classe média graças ao crescimento desses países. Outro dado importante é o crescimento da participação desses países nos fluxos de comércio mundial, como mostrado em uma imagem que postarei nos comentários. O índice de abertura comercial (que calcula a proporção entre o PIB e a soma das importações e exportações), que não passava de 15% antes das reformas pró-mercado, subiu, hoje, a mais de 40%. 

O choque de capitalismo nesses países é especialmente curioso, pois o índice de desigualdade cresceu muito, porém, com o crescimento econômico, isso não mudou o fato de que TODAS as camadas da população tiveram um aumento significativo de renda e de qualidade de vida. Isso me lembra da afirmação da economista Deirdre N. McCloskey, de que é o crescimento econômico, não a promoção da igualdade, que beneficia os pobres. No caso da Índia e da China, ela, sem dúvida, está certa. [fonte 2]

Acho muito importante olhar para esses dois exemplos quando nos questionamos qual deve ser o papel do Estado na economia. O contraste entre o período posterior à adoção de medidas pró-mercado e o período anterior, dirigista e burocrático, é nítido. Aqueles que buscam um controle estatal quase completo da economia, hostilizando os empreendedores e o capital estrangeiro, têm muito a aprender com a análise da experiência indiana e chinesa. 

Fonte 1- Mao’s Great Famine, de Frank Dikötter. Se quiserem entender mais sobre o Great Leap Forward, podem ler um resumo do livro nesse artigo: http://www.nytimes.com/2010/12/16/opinion/16iht-eddikotter16.html

Fonte 2 – http://www.nytimes.com/2016/12/23/business/growth-not-forced-equality-saves-the-poor.html

Caso queiram se aprofundar sobre como a Índia e a China conseguiram reduzir tão drasticamente a pobreza extrema, recomendo a leitura desse artigo: 
http://www.un.org/esa/desa/papers/2010/wp92_2010.pdf

Gráficos disponíveis em:
https://ourworldindata.org/

Rafael Galera é diplomata brasileiro. As opiniões expressas nesse texto e nessa página, entretanto, são exclusivamente pessoais, não representando, em hipótese alguma, as posições do Ministério das Relações Exteriores ou do Governo Brasileiro.

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