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Cosmopolitismo e Nacionalismo – Um giro do século XIX para o século XXI

Como a história de Viena pode ilustrar a forma que nacionalismo radical e xenófobo surge

Viena, no século XIX, era considerada a cidade mais cosmopolita da Europa. Situada no Império Austro-Húngaro, que, por governar povos de diversas etnias e temer que nacionalismos fragmentassem o império, tinha como objetivo criar uma cultura cosmopolita. Viena, por ser a capital do Império, era a principal vitrine dessa nova ideologia. A cidade, antes habitada quase exclusivamente por alemães, passou a receber um grande fluxo de húngaros, tchecos e poloneses. A princípio, essa estratégia pareceu dar certo: a cidade, de fato, tornou-se a mais cosmopolita da Europa, originando inúmeros movimentos artísticos e culturais que influenciaram o resto do mundo. O objetivo da monarquia – criar um Império que transcendesse as diferenças culturais – parecia plausível.

Com o passar do tempo, entretanto, esses fluxos migratórios começaram a criar dificuldades para o Império. A classe trabalhadora alemã de Viena começou a ressentir essas ondas migratórias, os tchecos eram acusados de aceitar empregos por salários baixos, diminuindo a renda dos trabalhadores alemães, e de corromper a cultura germânica. Esse sentimento foi canalizado por Karl Lueger, que, após uma campanha com o slogan “Viena é alemã e deve continuar alemã”, conseguiu ser eleito para a prefeitura da cidade. O Imperador Franz, entretanto, não aceitava esse nacionalismo e não dava atenção ao movimento, que ele considerava incivilizado e retrógrado; ele tentou, portanto, impedir a posse de Lueger. Eleito em 1895, Lueger foi empossado somente em 1897, depois de inúmeras manifestações populares exigindo sua posse. A monarquia, entretanto, continuou com o projeto de tornar Viena mais cosmopolita, incentivando a imigração. Isso fortaleceu ainda mais o movimento nacionalista, que, apesar de receber pouco apoio das elites políticas e intelectuais, ganhava força entre as classes trabalhadoras. Isso foi o começo do fim do grande projeto cosmopolita de Viena. Depois disso, já conhecemos a história. Com a combinação das idéias radicais e xenófobas de Viena com um tratado humilhante como o de Versalhes, Hitler, um austríaco, influenciado pelas ideias de Lueger, chegou ao poder na Alemanha e implementou um regime cruel, totalitário, nacionalista e xenófobo.

Hoje, na Europa, vemos a ascensão de partidos políticos que pregam a xenofobia e o nacionalismo. Uma repetição do que aconteceu em Viena: intelectuais e políticos tomam decisões racionais – corretas de uma perspectiva teórica – mas que não levam em conta reações subjetivas da população, tendo consequências, na prática, trágicas. Ao defender um recebimento de imigrantes maior do que um país é capaz de assimilar culturalmente, mesmo contra a opinião de população, alguns políticos e intelectuais bem intencionados acabam por ENFRAQUECER o movimento cosmopolita-liberal, uma vez que ignoram as reações subjetivas da população.

Partindo do pressuposto de que defender um nacionalismo xenófobo não é uma opção, existem, portanto, duas perspectivas cosmopolitas plausíveis:

a)Uma política criada em uma torre-de-marfim, que eu chamarei de cosmopolitismo-idealista, excelente de uma perspectiva teórica, defenderia um aumento ainda maior da imigração e da recepção de refugiados, sem levar em conta a reação da população.

b)Uma perspectiva cosmopolita-pragmática, que, apesar de defender a imigração e a recepção de refugiados, ficaria atenta às REAÇÕES SUBJETIVAS da população. Percebendo que os efeitos de uma política de imigração descontrolada podem ser, justamente, a ascensão e fortalecimento de ideias nacionalistas radicais. Trata-se da defesa do cosmopolitismo com uma perspectiva de longo prazo.

Explicando como o cosmopolitismo-pragmático funcionaria:

Existem países que tem feito um ótimo trabalho em assimilar imigrantes, como o Canadá, por exemplo, que tem uma população de imigrantes, percentualmente, maior do que quase todos os países europeus. A assimilação de imigrantes não tem gerado grandes conflitos, uma vez que tem sido bem administrada. Uma perspectiva cosmopolita-pragmática reconheceria que não tem existido uma reação subjetiva muito negativa na política imigratória canadense, e apoiaria, portanto, essa política. Mas em países como a França, em que a política imigratória e cultural tem suscitado reações subjetivas fortes, como a ascensão de movimentos xenófobos, a perspectiva cosmopolita-pragmática buscaria alterar a política imigratória, de forma a levar em conta as reações subjetivas da população. O cosmopolitismo-pragmático, portanto, não leva em conta o total de imigrantes (afinal, o Canadá tem uma porcentagem maior de imigrantes que a França) mas, sim, a reação da população a eles.

Tentar impor o cosmopolitismo de cima para baixo(ou impor qualquer ideia, mesmo que correta), sem levar em conta as reações da população, é repetir o erro da Áustria, que, ao tentar impor uma cultura cosmopolita, apoiada pelas classes políticas e intelectuais, mas hostilizada pela classe trabalhadora, acabou por gerar exatamente o contrário: o surgimento e fortalecimento de ideologias ultra-nacionalistas e anti-cosmopolitas, das quais o nazismo é um exemplo.

Ideias não devem ser impostas, mas discutidas.

Rafael Galera é diplomata brasileiro. As opiniões expressas nesse texto e nessa página, entretanto, são exclusivamente pessoais, não representando as posições do Ministério das Relações Exteriores ou do Governo Brasileiro.

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