História

A confusão no Oriente Médio explicada

O Oriente Médio está um caos. Muitos nomes pipocam nas noticias: o famigerado Estado Islâmico, os curdos, Irã, Iraque, Síria, rebeldes sírios, coalizão americana, milícias xiitas, etc. Minha intenção nesse artigo é tentar explicar a situação de uma maneira que tudo não pareça uma confusão.
Para compreender a posição de cada grupo é necessário fazer duas breves regressões históricas.

O processo de desestabilização da região se agravou em 2003 com a invasão americana e a queda do Saddam Hussein, antigo ditador do Iraque; depois disso o Iraque não conseguiu se estabilizar e, na prática, se dividiu em três grupos principais:

Os Sunitas, antigos apoiadores de Hussein, foram retirados de todas as posições importantes do país e marginalizados politicamente. Quando os Estados Unidos derrubaram Saddam Hussein, as forças de segurança (que eram Sunitas) foram dissolvidas, grande parte dos Sunitas demitidos deram um jeito de manter as suas armas, tornando a região uma bomba relógio.

Os Xiitas, maioria da população, se dividiram em muitas facções que só concordavam em uma coisa: continuar a marginalização dos Sunitas; esse objetivo comum levou a criação de uma coalizão extremamente precária que governa o Iraque até hoje; essa coalizão aparelhou as forças militares apenas com Xiitas, e os Sunitas passaram a sofrer perseguições e restrições por todo o Iraque.

Os Curdos, ao norte, que apoiaram os americanos na derrubada de Saddam, receberam uma grande margem de autonomia e começaram um processo de isolamento do resto do país, inclusive com eleições e um governo provincial relativamente democrático.

A segunda parte da retrospectiva é a Guerra Civil Síria.
Em 2011, inicia-se uma rebelião de Sunitas contra o governo de Bashar al-Assad, ditador da Síria. Os países ocidentais passam a apoiar uma frente unida de rebeldes seculares; porém alguns países do Golfo Pérsico, especialmente a Arábia Saudita, insatisfeitos com o fracasso dos rebeldes seculares, optam por tentar influenciar os rebeldes islâmicos e passam a fornecer armamentos aos mesmos, com a intenção de que eles derrubassem o governo de Assad, que, esse sim, era considerado o verdadeiro inimigo.

Uma facção da Al-Qaeda se instala na Síria e começa a ter sucesso contra Assad. Os fundamentalistas que antes eram mais moderados, pois temiam perder o apoio da Arábia Saudita, resolvem se juntar a essa filial da Al-Qaeda; em algum tempo, o sucesso militar desse grupo e sua crueldade extrema levam a uma ruptura com a Al-Qaeda, surge o famigerado Estado Islâmico. Muitos rebeldes antes seculares também se unem ao EI.

O Estado Islâmico, vale lembrar, surgiu dentro de uma rebelião Sunita contra o regime xiita\alauita de Assad. Foi fácil para os iraquianos se identificarem com o Estado Islâmico, pois ambos odiavam xiitas.

Sunitas, com armas, oprimidos por xiitas no Iraque. sunitas fundamentalistas tendo sucesso em uma rebelião na Síria contra xiitas. Fácil de prever o que aconteceu a seguir. O Estado Islâmico se expandiu para o Iraque de uma maneira extremamente rápida, encontrando pouca resistência das regiões sunitas, eles só foram parados quando se aproximaram de Bagdá, quando começaram a encontrar regiões de população xiita e também quando eles se aproximaram de regiões Curdas.

E como estão as coisas hoje?
O governo xiita do Iraque, está em fragalhos, ele tem se utilizado de milícias paramilitares para defender seus territórios. Seus exércitos estão desorganizados e não parecem ter nenhuma capacidade de realizar uma ofensiva eficiente a curto prazo.

O regime de Assad, na Síria, está feliz que as atenções internacionais se voltaram para as atrocidades do Estado Islâmico. Ele continua lutando contra os rebeldes seculares (que não aparecem no mapa, mas são uma força pequena) e também contra o Estado Islâmico. Ganhou folego, reorganizou seu exercito, e tem contado com algumas vitórias militares significativas.

A Coalizão liderada pelos Estados Unidos tem realizado muitos bombardeios nos territórios do Estado Islâmico. Os bombardeios foram capazes de enfraquecer a ofensiva do EI e permitiram que tanto Assad como os Curdos avançassem em direção ao território do EI.

Os curdos, curiosamente, são o “Estado” mais organizado dos já citados, apesar deles serem apenas um território autônomo dentro do Iraque. Os curdos possuem um eficiente, bem equipado e disciplinado exercito –conhecido como” Peshmerga “- e também uma renda segura da exploração do petróleo da região. Os curdos não possuem mais uma ligação por terra com o governo Xiita do Iraque, já que o Estado Islâmico domina territórios entre ambos, portando o governo Curdo tem agido com total autonomia.

O Estado Islâmico tem agido com certo desespero, os constantes bombardeios tem prejudicado muito a capacidade dos fundamentalistas de governarem seus territórios. Cada vez mais, eles utilizam da violência como recurso para manter a população na linha. Os sunitas iraquianos, que antes tinham acolhido o Estado Islâmico como libertadores, começam progressivamente a encara-los como cruéis e arbitrários, mas, apesar da perda de apoio da maioria dos sunitas, não haverá uma rebelião sunita contra o Estado Islâmico, não enquanto isso significar a volta dessas regiões para o controle das milícias indisciplinadas do governo xiita, algumass das quais anseiam por vingança.

O que eu acho que vai acontecer? Bom, tudo parece indicar que o Estado Islâmico será derrotado, a dúvida é mais quanto tempo ele será capaz de sobreviver.

O Regime de Assad tem solidificado sua posição sobre muitas regiões, a popularidade dele está em alta, cultivando a imagem de um ditador secular capaz de salvar a Síria do cruel Estado Islâmico. Possivelmente, Assad se manterá no poder a não ser que os países ocidentais façam algo contra ele. A verdadeira dúvida é se a Síria será a Síria que nós conhecemos, ou se as regiões sunitas e curdas irão se tornar independentes ou mesmo entrar numa espécie de confederação com o governo de Assad.

Os Curdos mostraram-se capazes de organizar um exercito e uma democracia, seu Estado é sólido. Todos os partidos se uniram num governo de coalizão eficiente, que não perde tempo em picuinhas como o iraquiano. Alguns poucos diplomatas já especularam que os curdos podem se tornar um país independente do Iraque após a derrota do EI, talvez até mesmo anexando as regiões da Síria que são habitadas por curdos. Mas eles terão de enfrentar a resistência da Turquia, que teme que um Estado curdo sirva de inspiração para as minorias curdas em território turco exigirem a independência ou mesmo uma maior autonomia.

O Iraque já é um caso mais complicado. Tudo depende de se os xiitas serão capazes de formar um governo que permita participação dos sunitas; caso isso não seja possível, dificilmente haverá estabilidade, mesmo que o Estado Islâmico seja expulso de seu território.

Dependendo da posição política do analista, ele normalmente dirá que o caos do Oriente Médio tem duas causas: Muita interferência dos EUA(Esquerda) ou pouca interferência dos EUA(Direita). Ambas as análises estão corretas.
Os EUA interviram o suficiente para desestabilizar os regimes autoritários da região, mas não o suficiente para construir algo estável no lugar deles. O resultado é esse caos.
Uma lembrança interessante é que os EUA transformaram a Alemanha Nazista e o Japão Imperial em democracias vibrantes, mas claro que estamos falando de regiões e épocas diferentes, naqueles tempos uma Alemanha e um Japão fortes e democráticos eram necessários para conter a URSS e por esse motivo os EUA despejaram grandes quantias de dinheiro nesse projeto; mas a questão é que, com um certo esforço internacional -não dos EUA, que não parecem ter folego de se engajar nesse tipo de projeto, mas através das Nações Unidas e de um programa multilateral-, muito é possível, inclusive estabilizar o Oriente Médio.

Texto de autoria de Rafael Galera, publicado, originalmente, sob o pseudônimo Otto Weber. Todas as opiniões expressas no texto representam a opinião pessoal do autor e, de forma alguma, a posição do Ministério das Relações Exteriores ou do Governo Brasileiro.

Eu já escrevi outro artigo sobre o Oriente Médio, em que discuto a origem do “anti-ocidentalismo” e também o conflito Sunitas vs Xiitas.
Se tiverem interesse:
https://www.facebook.com/…/a.14722259696…/1498295007063521/…

O crédito da imagem vai para o jornal “The Economist”.

Ver mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close